sábado, 17 de março de 2012

socorro

frotas da miséria
preciso de âncoras
ou de uma carabina
mas
a sanidade daqui
é cancerígena

domingo, 11 de março de 2012

Não é só uma profissão

Ressuscita em mim a paixão de lecionar. Sinto-me, pois, integralmente fiel a mim mesmo e autêntico apenas quando o faço. Dou o sangue para o efetivo aprendizado mútuo, e aqui enfatizo o mútuo. Arrombando as correntes técnicas e pragmáticas, a ação é sempre futífera. Enfim, fico contente e me sinto realizado em novamente encontrar mais alunos com quem posso construir amizades que, efêmeras ou não, marcam. É tudo que espero, não há mais o que dizer.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Nós não vamos esquecer.

Olho no relógio, uma da madrugada. Sei que não vou conseguir dormir e, se conseguir, poderia me atrasar. Vou pra rodoviária – como aqui não há circular nesse horário, vou andando –, esperar pelo primeiro ônibus para Campinas, que sairia às quatro e meia. Também seria a primeira das outras seis conduções que eu tomaria ao longo do dia. Lá, me encontro já com algumas das pessoas que eu podia partilhar o repúdio e a indignação com o caso do Pinheirinho. Não são poucas; conseguimos lotar dois ônibus rumo a São José dos Campos, palco do massacre do dia 22 de janeiro. Agora, no entanto, seria palco da luta popular, coisa que enche meu coração e escreve páginas da História. Foi convocado um ato nacional pelo apoio à comunidade do Pinheirinho e que reivindicaria uma intervenção do governo federal na solução para as famílias desalojadas. Não obstante, a manifestação também aconteceu pelo direito básico à moradia, que o Estado se recusa a oferecer. Foram reunidas mais de quatro mil pessoas, de todo o país; além dos lojistas que levantavam faixas com mensagens de apoio e das pessoas que, das janelas de seus prédios, tremulavam bandeiras vermelhas e brancas. Todos queriam ter uma voz contra a opressão e a barbárie que desalojou milhares de famílias. Era unânime a gana de denunciar a realidade criminosa das ações da polícia militar, fielmente patrocinada pelos governos estadual e municipal e pelo próprio Naji Nahas. Paramos a cidade. Acredito que contém nessa ação específica um dos principais objetivos de uma manifestação: o rompimento da sistematização do cotidiano. O urbano é muito previsível, carros e pessoas indo de um lado pro outro, o dia inteiro; nada mais diferente que isso acontece, estão acostumados com o comum. Logo, interromper toda essa gente será um desaforo; aproveitemos e chamemos a atenção para uma situação gravíssima. O coro que anunciava a manifestação era emocionante: quem luta não está sozinho, somos todos Pinheirinho. Observe quão importante é a carga semântica que leva este grito: a polícia foi covarde e violenta, e também pode sê-los a cumplicidade do povo inerte, mas nós não. Nós estamos dispostos a mostrar a cara e ir pra rua; pois, se não somos a polícia, o governo, e se não somos cúmplices, somos todos Pinheirinho.
   
Logo após a passeata, algumas das caravanas foram visitar o local do massacre, o próprio bairro do Pinheirinho. Fomos também. Mas cadê o bairro? Só vejo escombros. Começo a crer que o bairro, a comunidade inteira foi cruelmente enterrada sob estes escombros, assim como sonhos, tetos, conquistas e até vidas. A cena choca, e de fato, atinge. Sente-se a opressão que tomou o lugar, a destruição, a violência. Não dá pra acreditar na insensibilidade das autoridades ao pôr na rua tantas famílias, levando ao chão suas casas. O terreno é enorme, maior que bairros comuns; continua depois do último alcance da vista. É revoltante perceber que era só uma pessoa que queria tudo aquilo, e passou por cima de tantas famílias pra conseguir. Me diz, que indivíduo realmente precisa de mais de um milhão de metros quadrados? Ainda por cima, esse tal “dono” das terras é um criminoso. Não pode entrar em mais de trinta países. Mas aqui, ele tem todo o amparo que precisa. Até mesmo do poder militar.

Debaixo das pedras (sim, pedras, pois não eram barracos ou tendas e, sim, casas construídas com o trabalho e suor do povo), dá pra ver móveis inteiros, como sofás e armários, material de construção fechado, como sacos de cimento; também se via muitas apostilas e livros didáticos, brinquedos, bicicletas, sapatos de criança, e muita roupa. O cenário acompanhava um fortíssimo cheiro de carne podre, e ninguém via nenhum animal morto por perto. Sabe-se que nenhuma busca de corpos foi realizada até agora, e os dirigentes contam com pelo menos vinte pessoas desaparecidas. Além disso, há a informação de que, no dia da desocupação, policiais passaram nos hospitais da cidade e levaram os corpos, feridos ou mortos.

Depois disso, partimos para um dos abrigos onde estão algumas das várias famílias do Pinheirinho, pois deixaríamos algumas doações. Há uma quadra de esportes, daquelas enormes, que foi completamente ocupada por colchões, um do lado do outro. As arquibancadas desta quadra também estão forradas. Precisei ir ao banheiro, e encontrei com uma fila grande para os chuveiros. Conversando com os moradores, temos mais certeza como os autores deste crime são uns verdadeiros facínoras. Um senhor, já nervoso, conta como era impossível resistir à operação da polícia; pois, certamente, se o fizessem, perderiam suas vidas e arriscariam as de suas crianças. Presenciamos o diálogo de uma moradora enfrentando, com coragem, uma assistente social, que explica que cada família receberá uma quantia mensal de quinhentos reais, por pelo menos seis meses, que funcionará como auxílio-aluguel. O problema disso parece tão óbvio, só pra essa moça da prefeitura que não, pensamos. Como encontrar na cidade casas, a este preço, para todas as famílias desabrigadas? E será que ninguém se importa em alugar para a gente do Pinheirinho? Em suma, eles não tem pra onde ir. Também pergunto se é verdade a história das passagens para o Norte. A moradora confirma: “É verdade! Eles deram pra gente passagem pro norte e pro nordeste, como se todo mundo do Pinheirinho fosse do nordeste, mas não, a gente é tudo daqui da cidade, mesmo”. Nenhuma família era nordestina. Portanto, além da óbvia política higienista do estado, o preconceito também atinge os nordestinos.

Estamos prontos para voltar pra Campinas. Antes de partir, lanço um último olhar ao abrigo onde se concentram centenas de moradores. Vejo, de longe, um senhor do próprio abrigo me encarando, com olhos azuis e caídos, rugas cansadas por todo o rosto, que define e condena toda a brutalidade e crueldade do episódio. Sua expressão, triste e taciturna, revela que, infelizmente, agora não se espera outra coisa senão a impunidade.

sábado, 21 de janeiro de 2012

A arte e eu

Pra que serve a arte? A princípio, soa a pergunta algo insensível, que seria bradada por um tosco, um boçal, exigindo que se abra um caminho no meio daqueles artistas de rua, filósofos de sarjeta, uns nojentos, vagabundos. Sim, pode ser, esse sujeito seria um boçal. Mas a pergunta é também muito relevante. Considero, antes, que arte é se expressar. Somos humanos e, assim como projetamos distintas expressões e sentimentos, há também diversos tipos de arte. Portanto, toda a arte tem seu valor, mas com a condição de que seja fiel à expressão do artista, ao que ele sente. Caso contrário, não é arte. Mas aí já acredito que isso seja uma crença pessoal e que a arte pode ser definida de forma diferente em outra cabeça. O devaneio que quero aqui explorar não é a definição da arte, mas sua função. Curioso é pensar como um conceito simples e, ao mesmo tempo, amplo, que adquire sentidos tão diferentes em tantas perspectivas, pode afetar drasticamente a vida de qualquer pessoa. Acho que a arte é isso: uma provocação, tanto no sentido subversivo quanto catalisador dessa palavra. Existe para sacudir essas tantas estátuas que vemos por aí nas ruas, inexpressivas, sérias, sisudas, fatalmente introspectivas, quase defuntas, mesmo que andando e falando a esmo. A arte é substancialmente um instrumento para a aurora da consciência crítica – não falo de uma consciência política ou social e sim, de uma essência crítica, que desperta o ser humano, habilita-o para o pensar e ser autônomo. Funciona como uma revolução no íntimo, creio eu. Pode soar algo demasiado forte para uma palavrinha de quatro letras, mas, de fato, o é. A prova está aí, a arte existe, subsiste e resiste até mesmo nos dias de hoje, nos quais a frivolidade, a ociosidade e a arrogância não fazem terra tão fértil para sua morada.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

1968 e hoje

Nossa democracia é uma ditadura legitimada. Seja para você, tal afirmação, polêmica ou óbvia, será a bandeira que erguerei até que meus olhos me provem o contrário.

Nutrimos relações de admiração e respeito por todos os heróis de 1968; pois sejam eles brasileiros, ingleses, mexicanos, franceses, chilenos, argentinos, estadunidenses, não foram poucos, e não lutaram em vão. Foram vitoriosos. Além de suas próprias conquistas, foram capazes de semear em alguns corações o real espírito da luta e a aversão à inércia vegetante. Mais que isso: num único momento da História, uniram-se e despertaram o mundo de um sono profundo, alertando-o da opressão que o construía. Isso é belo. Também herói de 68, Augusto Boal marcou seu nome em minha mente com uma frase célebre, que resume a catarse coletiva daquele ano: cidadão não é aquele que vive em sociedade, é o que a transforma.

Ao passo que as lutas de 68 e sua globalização nos enchem de orgulho, também choramos por presenciar os mesmos atentados, justamente os quais, tentando extinguir, morreram lutando. Assusta-nos (e aqui usei o termo propício, assustar) como pouco realmente mudou. A repressão e a violência ainda são instrumentos do Estado para manter a “ordem”, assim como a alienação – que inclui submissão total do pensamento popular, e também o mascaramento e distorção dos fatos. Porém, com a perfeita democratização da informação que não existia, como uma simples e fatal evolução tecnológica, foi surgindo uma urgência cada vez maior de estabelecer um controle mais amplo sobre a sociedade. Para isso, há um processo de domesticação e adestramento da opinião pública que, além de deixá-las dóceis, tornou as pessoas repulsas e adversas a qualquer incômodo à sistematização do cotidiano. Hoje, vemos acontecer os mesmos crimes em nome da ordem que abalaram 1968: podemos ver cavalarias militares prontas para reprimir estudantes, vemos soldados disparando contra multidões, sem nenhum medo ou pudor, ouvimos relatos horríveis de tortura, presenciamos agressões físicas, assim como perseguições e prisões políticas, vivemos sob constante vigia; e por outro lado, também vemos sujeitos dispostos a justificar toda essa crueldade, outros que, de tão cômodos, não se sensibilizam com nenhuma injustiça, e outros, mais acéfalos ainda, que condenam as ações do Estado por reprimir pouco, por serem insuficientes, e os de sempre, que só querem assistir televisão enquanto esperam pelo almoço. Todos estes horrores, que podem soar inofensivos, são óbvios resquícios ditatoriais. Não há como negar que é vestígio dos anos em que o país era assombrado por fardas verde-oliva e por cassetetes da ordem; dos anos em que muita gente morreu, foi assassinada, desapareceu, foi torturada ou teve que fugir. E agora, essa gente está vendo todos os seus pesadelos renascerem.

O que realmente me preocupa é que não abandonemos o ano de 1968 como mera fonte de nostalgia; tal seria ultraje, desrespeito. Somos, aqui e agora, os responsáveis por honrá-lo e eternizar tudo o que nos deixaram, que não me canso de frisar: o verdadeiro espírito da luta e a aversão à inércia.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

O pardal, a calha e o canalha

Alguns pardais se contentam em habitar as calhas das casas, percebi. Ficam lá por horas; e quando não estão lá, estão buscando outras coisas para preencher o lar que lá constróem, imagino eu. Nômades, resistirão até a próxima chuva, apenas. Lamentável, mas... será que sabem disso? Não descarto hipóteses. Tantas árvores tem caído por aqui; sem contar as várias vezes que são despejados. Acho até que lhes faltam alternativas para abrigo. O que lhes resta? Tem o canalha que manda cortar as árvores das calçadas e das praças, e o outro que enxota os bichinhos, pois não quer sujeira no quintal. Mas nenhum destes fez outra proposta de moradia para os pássaros. Digo mais: estes canalhas impuseram seus interesses frívolos, de uma forma que censurasse a necessidade dos bichos; e, para estes, essas imposições representam uma atitude fatal. Afinal, não tem onde morar. E o canalha, além de ter um ótimo lugar para se morar, ainda se satisfaz em privar os pardais de uma habitação minimamente digna, sem razão aparente. O curioso é que estes animais voam, e cantam, naturalmente. Caminham, desde o nascimento, numa plenitude máxima da liberdade - mesmo não tendo onde morar. Desta liberdade, os canalhas nunca chegarão aos pés.

Espero que tenham entendido a metáfora.